Karmann-ghia Coupé de 1963, de Miguel Brito

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HUGO bOSS
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Re: Karmann-ghia Coupé de 1963, de Miguel Brito

Post by HUGO bOSS »

Excelente Miguel!
Pena as fotos não terem sido tiradas no outro lado do carro... pois assim era só saltares para o volante e arancares e o castiço ficava sentadinho no chão... :mrgreen:
Um abraço do meio do Atlântico

Hugo Pereira



"Tens o carro do ano?
Eu tenho o Carro do Século"
""Patina" my ass, that's rust!"

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Miguel Brito
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Re: Karmann-ghia Coupé de 1963, de Miguel Brito

Post by Miguel Brito »

Dez e meia da manhã. Abro a porta da garagem e olho para o karmann-ghia ali parado. Desde a noite das fotos dos 20 anos que não andou. Ainda encontro uma garrafa de champanhe vazia lá dentro, os vidros estão agora cobertos de uma fina película de pó acumulado. Esqueci-me de desligar a bateria e assim ficou desde Maio.

Olho para debaixo do carro e não há dúvidas: um escorrimento suspeito pelo interior da roda traseira esquerda. Travões ou valvulina da caixa. Mais um problema para resolver. E nem sei se a bateria de 6V ainda tem carga para arrancar.

Olho para o banco do passageiro e está ainda o forro das costas solto do banco, tudo a soltar-se, mau aspecto evidente. Um dia mostrei isto na oficina da Damaia e remeteram a solução para um caríssimo estofador, que evidentemente não cheguei a ir visitar, pois prefiro sustentar a gente de minha casa. E ficou por resolver. Disseram que precisa de levar uns parafusos, mas não gosto de furar forras e estofos, por isso deixei o tema pendente, mas o buraco aberto é agora muito maior. Sozinho não se cura…

Bem, vamos lá pôr isto a mexer… Entro para o carro, meto a chave na primeira posição, e acende as duas luzes no mostrador. Pelo menos tem carga. Dou à chave, insisto, o motor de arranque roda com força suficiente, mas nada. Desligo e espero um pouco. Deixo a gasolina em excesso embeber o caminho até aos cilindros. Nova tentativa, motor de arranque a rodar e nada. Saio e vou ao motor, mudo uma posição da patilha do carburador e volto a tentar: pega ao primeiro toque de chave, deixo acelerar, aguardo um minuto e arranco suavemente para o exterior.

Deixo o andamento estabilizar, e tudo parece melhor. Ainda tem um resto de gasolina, deve chegar por agora. Desligo e aproveito para limpar os vidros. Depois vou buscar uma toalha suave e passo ao de leve pela carroçaria. Foi um instante até ficar todo replandescente. Telefono ao Fernando Valentim e digo-lhe que o vou visitar. Combinamos para o meio-dia, e arranco para a IC-19. Prefiro a volta maior, pois tenho dúvidas da capacidade de travagem, e prefiro ter mais espaço para manobrar. Embalo onde possível para ajudar a recarregar a bateria pequenina de 6V, e finalmente chego a São Marcos.

É o mergulho para a cave do Batman, deslizando por Gotham City, descobrindo o profundo esconderijo onde se fazem maravilhas. Parcialmente desarmado, um motor de carocha com um par de duplos e turbo está quase remontado, e pronto a aterrorizar de novo o asfalto.

Descubro o que ele tem andado a criar para aplicar no carro, soluções de efectivar as modificações para turbo muito interessantes, fica-me de novo a sensação que há trabalhos interessantes desconhecidos, que as revistas de especialidade não publicam, desconhecem, e ficamos a repetir até á exaustão a publicidade de material estrangeiro, sempre Gene Berg, Performance Parts, etc. E depois descobrimos por exemplo, que afinal é preferível montar carburadores Kadron sem a linkage associada, optando por material de diferente marca para completar o kit.
Depois de se andar a gastar dinheiro em material importado, descobre-se que é melhor inventar algo caseiro, que se consegue optimizar além de Berg e tal. É uma pena não se publicitar internacionalmente os valores nacionais.

Voltamos à realidade, posicionamos o KG, levantamos a traseira, e a roda em causa está um tanto relaxada e solta. O Fernando aperta a porca grande de 36mm e deixa de abanar. Talvez tenha curado o problema, ou talvez não. Tem que se aguardar o resultado.
Aproveita-se a oportunidade e fazem-se diversas verificações e correcções no carro. As fugas de escape, presentes desde Fevereiro de 2007 são finalmente resolvidas, e o escape fica imediatamente muito melhor.

O platinado foi polido, a folga medida e corrigida, e o avanço do distribuidor rectificado. Este motor “1200-letra D” dispara aos 10 graus TDC, e a marca da polie com dois dentes indica precisamente isso. Estudamos a posição da faísca em estático, desligado, e também em ralenti, com pistola de luz, para compensar eventuais desacertos de folgas. Fica tudo muito razoável, e o carro cada vez trabalha melhor. Este motor não era afinado desde o ano 2000, onze anos atrás...

Confirmou-se as afinações pelo Manual Haynes, o livro-biblia muito útil e completo. A bateria também tinha o nível baixo e foi completada. Levantou-se também o eixo dianteiro e verificou-se não haverem folgas de rolamentos nem de cavilhões. Tudo como deve ser. Parece estar pronto, por agora.

Entretanto, tal como esperado, são horas de almoçar… Oportunidade para andar de carro motorizado e preparado pelo Fernando, aquele som potente na traseira é irresistível. Assim somos três no carro: eu, ele e o motor…

Comemos uma vitela à Lafões divinal, tenra carne e batatas bem temperadas, regada a coca-cola, e rematada a mousse de chocolate, um must para ver o mundo de melhor modo. Após o almoço apenas restou controlar a pressão dos pneus, acção fundamental em ambiente racing, e que o Fernando não descurou. Um serviço 5 estrelas, acima da média, cuidadoso e completo, um almoço do melhor, e estava despachado pelas 14h30m.

Volto para casa, mas fico a pensar. Esta segunda-feira há certificações no ACP-Clássicos. E ainda estamos ao inicio da tarde. Será que consigo o impossível? Posso sempre tentar…

Experimento telefonar para a miúda gira da agência do Estoril, mas a querida Soraia não me deixou o telefone, e o da agência não encontro. Acabo a telefonar directamente para o director do ACP-C, que me diz que sim, para aparecer, que se resolve facilmente.
Mas resta um problema: o raio do forro do estofo solto… Mas para que é que estou a complicar? Vou a uma gaveta, ando a remexer e encontro uma bisnaga miniatura, de cola ultra potente, uma amostra que me ofereceram uns dez anos atrás. Será que ainda funciona? Diz que é apenas um grama de cola! Um grama?

Vou buscar uma toalha e uma corda comprida de sisal. Gasto a amostra de cola ao longo do forro solto, pressiono o encosto, embrulho o banco na toalha e amarro tudo em volta com o sisal. Fica com um mau aspecto que até assusta, parece um carro de ciganos, mas fica agora assim.

Sigo para a escolinha do meu Pedrinho, trago o miúdo de lá, e arrancamos os dois para o Prior Velho. Acelero pela IC-19 a 100 km/h, com cuidado para ter espaço para travar suavemente, faço a 2ª circular ainda folgada pelas 16 horas, e chego finalmente ao local das inspecções do ACP-C, no edifício do ACP no Prior Velho, com o mostrador bem no fim da reserva. Depois resolvo isso.
No último instante, antes de entrar, solto a corda, retiro a toalha das vistas, e magia: o estofo está novo, sem falhas e impecável, 100% pronto para mostrar. Pode ser que me safe…

Naquele momento está a decorrer a inspecção a um BMW M3 de 1989, um carro que não lembra a ninguém. E que com a dita certificação “deixa de poluir”… Logo aquele, que gasta o que todos sabemos: muito ou muitíssimo.

Não demorou muito até ser a minha vez. “Recordar é viver”, e o Eng. Luís Cunha lembrava-se da primeira vez da certificação, no primeiro lote feito, ainda em 2003. Os anos passam… mas o KG continua impecável de aspecto, espanta o bom estado geral. Em suma, um sucesso. Comentários vários, observação de detalhes, mas decorreu tudo de modo muito pacífico, e depressa se resolveu tudo, com as necessárias fotos para arquivo.

Sai de lá pelas 17 horas, e fui meter gasolina. Reparei então no que aconteceu desde as 10h30m. Em menos de 7 horas, ressuscitou o andamento, acertou o motor, reparou fugas de escape, almocei como deve ser, corrigi os estofos, e certifiquei o carro como “Veículo de interesse histórico nacional”. Tudo mudou, com a boa companhia dos amigos, Fernando Valentim e Eng. Luís Cunha. Há coisas fantásticas, não há?

Ao regressar a casa, o ronronar equilibrado e suave do motor adormeceu o Pedrinho deitado no banco de trás, enquanto seguia direito ao pôr-do-sol, no fim de tarde ameno do último dia de Primavera de 2011.

O carro podia valer agora mais, certificado, mas não valia mais do que aquele momento de magia, tal como no final feliz de algum poético filme, acabando a deslizar para o sol poente, pela longa estrada da vida. No horizonte, o palácio da Pena era testemunha no perfil da serra de Sintra, lugar de sonhos e mitos, encontro de História, cultura e mística, uma história longa, sem fim e feliz.

Vinte anos com o karmann-ghia, apenas os vinte primeiros anos… Certificado e confirmado: operacional, sempre!
"Um carocha por dia, dá vigor e alegria!"

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nezz
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Location: A long time ago, in a galaxy far, far away...

Re: Karmann-ghia Coupé de 1963, de Miguel Brito

Post by nezz »

que bela maneira de começar o verão 8)
[center]not all those who wander are lost - J.R.R. Tolkien[/center]
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