21 de Março de 2011, segunda-feira: Abri a porta da garagem e olhei para o karmann-ghia. Isto assim não pode ser.
Já quase nem me lembro da última vez que usei o carro. Mas por acaso até foi um dia interessante.
Era 2009, e em Setembro decorreu o encontro do VW Ar Clube de Portugal no Alentejo, em Estremoz. Um passeio muito interessante, com visitas ao castelo, ao museu, à pousada, com provas de vinhos numa adega de produção de um associado, um sucesso que levou uma excelente caravana de clássicos às poéticas estradas interiores do vasto alentejo.
Depois do regresso, a consagração, saindo foto na página de abertura do agora quase extinto ClássicosOnline. O carro portou-se maravilhosamente bem, ronronava suavemente até aos 120 km/h, fizemos o regresso nos 100, deslizamos pela estrada da felicidade.
E cheguei a casa e meti o carro na “bolha”, o carcoon car cover inglês de tanto sucesso. E não voltou a sair...
Chegou o ano de 2010 e a data de inspecção em Fevereiro. O tempo esteve sempre muito chuvoso, questões profissionais exigiram a minha atenção e preocupação, precisei de restringir despesas, e como o carro estava em bom estado acabou sempre por ir ficando para trás.
Esquecemo-nos muitas vezes que quatro carros são quatro divisões do nosso tempo ao volante. Simplesmente chega uma ocasião em que já não conseguimos conduzir todos por igual, há sempre algum que fica pendurado. E passar a data de inspecção apenas acentuou o problema. E quanto mais tempo passou, mais complicado ficava ter de resolver a situação antes de estar de novo operacional.
E passou mais um ano completo... Marcava o mesmo km 34017 a 1 de janeiro de 2010 e a 1 de janeiro de 2011...
E voltou Fevereiro e de novo passou a data de inspecção, e o dia dos namorados, e o meu aniversário. Começou a surgir uma sombra na minha cabeça, um incómodo que se acentuava, da inutilidade de ter sem ter, um fantástico karmann-ghia fantasma...
De repente, tudo se precipitou: dia 22 de Março fazia 20 anos certos que eu comprei o carro, e interessa festejar a data.
Em breve voltará a ser usado num casamento, e ainda em mais outra actividade, para acentuar a comemoração dos 20 anos de posse: uma interessante sessão fotográfica com o carro no glamour da noite de Lisboa. Uns festejos em grande.
Mas para isso é preciso ir á inspecção, e é preciso que funcione de novo...
Apercebo-me que a última vez que meti gasolina nele foi ainda no alentejo, em Estremoz, há 18 meses atrás, e apenas tem um resto no depósito. Descubro também que me esqueci de desligar a bateria de 6 volts. Isto vai ser complicado...
Vamos ver o que consigo fazer, e o tempo que isto vai levar até estar operacional de novo.
Dia 21 dou á chave e acende as duas luzes no tablier. Já não está mal de todo. Experimento, e o motor de arranque tem força, e dá umas voltas sem que nada aconteça. É natural, o carburador deve estar seco. Dou mais uma vez ao arranque, mexo o pedal a ver se injecta alguma gasolina. Na terceira tentativa, para minha surpresa, tosse, engasga-se e arranca o motor em funcionamento! Nem 1 minuto passou e desceu o ralenti, ficou suave e certo. Isto é incrível: acabo de ligar um motor de 6 volts dezoito meses depois de parado, á terceira tentativa de chave, e nem precisei de rodar o motor à mão, nem meter gasolina na cuba , nem nada de especial.
Uma bateria de 6V parada durante ano e meio e funciona à primeira...
Vamos lá ver com está em andamento: saio á rua e preciso de fazer alguns km’s com cuidado para recarregar a bateria e testar travões.
Procuro um percurso ideal, que permita acelerar, com pouco tráfego, sem polícias, e com bermas largas para obviar algum azar, e próximo de casa, para conseguir regressar a pé, caso seja necessário. Primeiro deixei aquecer e mexer-se tudo a 60, a valvulina da caixa voltar a ser fluida, o motor dilatar ao calor de funcionamento, e depois uns toques ao travão, que tem aquela afinação que assusta, à Sr. João da luso-Alemã, muito folgado ao primeiro contacto, e que exige alguma habituação. Depois até nos conseguimos habituar, mas é absurdamente diferente da afinação á moda do Sr. Jaime da Junqueira, de contacto directo. São estratégias diferentes, é preciso é saber agir em conformidade.
Depois, aumentei a velocidade, os pneus voltaram a ficar redondos, perderam o acamado de parados, os travões voltaram, e testei a direcção: sem folgas, certinha, não foge. Puxei para 80-90 para recarregar a bateria, fiz 10 km para cada lado, vias rápidas, toda a gente muito curiosa e fixada no karmann-ghia, e já chega, por agora.
Regressei a casa, e era tempo de limpeza completa: água suave para libertar alguma poeira ligeira, depois camurça ensopada para retomar o brilho de carroçaria. Ainda tem cera aplicada que chegue, apenas bastou um reforço de Autoglym no tejadilho negro. A limpeza a fundo das jantes de alumínio polido é que foi mais trabalhosa, com papel e “coração”, mas ficou bem. Mesmo tratamento aos pára-choques, e aos frisos cromados, em torno dos vidros, e aplicar abrilhantador aos pneus. Limpar o interior, bater tapetes, e chega para o dia, que tenho outros temas a tratar.
Passou-se o dia dos “20 anos”, pelo menos sei que funciona e está operacional. Dia 23 o dia amanheceu limpo, e nem é tarde nem é cedo, é dia de tentar efectivar a inspecção. Mas ainda faltam uns detalhes, falta sempre qualquer coisa.
Sigo para uma bomba de gasolina normal, das “caras” e meto apenas 5 euros, os antigos mil escudos, que agora apenas quase chegam a 3 litros. Lembro-me em 1991, quando ia a Coimbra de karmann-ghia, que bastava o equivalente a 20 euros para ir e voltar. Agora, são precisos 50 euros e o carro é o mesmo e gasta o mesmo.
Aproveito o momento e subo o ar dos pneus. Estavam todos baixos por igual.
Levei o carro para o bairro em frente de casa, e estacionei com metade do carro em cima do passeio e metade no alcatrão. Assim inclinado, já conseguiu deitar-me debaixo do motor, com papel e spray mistolin, para limpar o motor por baixo. Os inspectores gostam de ver o rabinho limpo, e a gente tem que entrar nesta brincadeira... é uma praxe a sofrer.
Quanto mais limpo ficava o motor, mais sujo ficava eu... Mas espanto-me com o estado do carro. Restaurado em 1995, faz já 15 anos após restauro, continua tudo novo, não pinga, nem tem quase nada sujo por debaixo. De facto, mantém-se fantástico.
Ainda me ri sózinho: andam aí dois karmann-ghias à venda, supostamente muito bons, e até estão muito razoáveis. Um custa 16 mil euros, o outro custa 18 mil e quinhentos euros. Este meu está de facto muito acima em múltiplas qualidades, e por isso torna-se um exercício cómico imaginar o valor astronómico que deverá valer, por comparação aos outros.
E quando estava a dar o trabalho por terminado, apareceu o meu amigo Timóteo, no momento ideal, pois aproveitei para lhe pedir ajuda para confirmar o funcionamento das luzes. E claro, nunca nada resulta a 100% á primeira, pelo menos tratando-se de velharias: os piscas do lado direito não funcionavam.
Mas não era um simples e comum mau contacto, uma falta de alguma luz por falta de massa, era global: do lado direito, nem pisca na frente, nem atrás, nem no indicador piscante do mostrador.
Das duas, uma: ou é fusível, ou comutador. Com uma luz testemunho verificamos os fusíveis, e todos estão bem. Abrimos a mala dianteira e desforramos o protector para aceder ao interior do tablier. Tudo está ainda novo, a pintura do carro é tão boa e brilhante por dentro como por fora, mesmo nos locais que não se vê. Tudo está novo. A solução foi simples, umas pancadinhas no relé de 6V dos piscas, e ficou a vibrar de novo e tudo a funcionar: pisca no tablier, bem como á frente e atrás. Pronto, não mexe mais. Resta seguir para inspecção. O travão de mão nem tento experimentar, desde que funcione lá, é o que é preciso.
Com a oportunidade de aparecer na inspecção a meio da manhã de quarta-feira, tive a esperada facilidade de aquilo estar folgado, pouca gente, facilidade em me despachar.
O maior stress foi descobrir que o pior e mais mal-encarado fiscal de sempre agora está por ali... Mudei de local de inspecção, para fugir ao “coninhas cientifico” e não é que por azar, o gajo me surge agora aqui? Que caraças, já estou tramado com isto...
Por sorte, ele reconhece-me, estremece, e sinto que vai fazer o que melhor tem que fazer: manter-se à distância...
Pelo contrário, o fiscal que me surge é muito pacifico, natural, e porque não dizê-lo, competente: avalia o que é importante e não anda á procura de picuinhices para chumbar.
Comenta que teve lá outro karmann-ghia para inspecionar, castanho. Deve ser o que pertencia ao Miguel Palma, que também já guiei, antes e depois de restaurado, e que se mantém por Cascais.
Gases e ralenti tudo bem, luzes também, nem macacadas de afinar para cima e para baixo para mostrarem sabedoria, nem tretas de “pouco espelhado” ou “difuso”, apenas a naturalidade de constatar que dá de facto boa luz, com lâmpadas de halogénio a 6V e relés directos á bateria. Dá tanta luz como um carro actual de 12V, o que é surpreendente.
A suspensão está estável, tudo normal, e a travagem de pé dianteira fabulosa, exacta e potente. Já a de trás... a traseira direita está fraca, talvez ainda relacionado com a incómoda eterna fuga de valvulina que tende a persistir por vezes naquele lado, é preciso paciência.
Vistoria inferior demonstra apenas qualidade em tudo, e de imediato a impressão da folha verde garante andamento até fevereiro do ano que vem.
Tudo resolvido, acelero de novo, agora para ir meter gasolina decente, mais barata, uns 10 euros “Jumbo”. Na bomba de gasolina ia ficando sem bateria... As luzes na inspecção deitaram a coisa abaixo. Assim, precisei de acelerar em ralenti, empurrar as rotações para cima, para dar sumo á bateria. Resultou, mas por via das dúvidas, abasteci na posição da bomba mais fácil de poder empurrar, caso fosse necessário. Mas nada se complicou.
Regressei a casa numa primaveril manhã, com tudo operacional, aprovado, no dia a seguir aos 20 anos da compra.
Ao chegar a casa, um telefonema a confirmar a sessão fotográfica privada para amanhã, tudo combinado: produção, cosmética e cabelos, manequins escolhidos, fotógrafo profissional, gestão de locais em Lisboa, com a disponibilidade de toda uma equipa (o famoso fotógrafo, stylist, maquilhadora, dois assistentes, e dois manequins).
Volkswagen karmann-ghia, o luxo acessível, a exclusividade da qualidade, o melhor de dois mundos, a sedução italiana com qualidade alemã. Ámen!
Em breve, fotos muito interessantes...
