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1600TL do Arq. Castro

Posted: 14 Nov 2008 02:13
by Miguel Brito
O Volkswagen 1600TL do Arquitecto Castro.

Era uma vez… É assim que começam todas as histórias de encantar. E talvez seja essa a melhor forma de começar uma história longa de paixão, entre o homem e a máquina. Só pode ser uma história de sucesso, pois envolve um clássico volkswagen, e todos sabemos da longevidade desses clássicos, que são mais que carros, são companheiros de aventura e de vida.

E quando as coisas duram assim tanto tempo, tornam-se parte da nossa vida, elementos de paixão, hábitos de sempre. Guardado numa garagem nos últimos tempos, transitando entre locais de repouso, surge agora disponível aos nosso olhos, na oportunidade que tive de visitar o dono e a máquina.

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Fui ver o famoso 1600TL que está em Caxias. A história é curiosa, e o dono, o Arquitecto Castro, é uma personagem muito interessante em si mesmo. Senhor já de certa idade, ele mesmo é também “um clássico”.
Mais um arquitecto com volkswagens, a prova de que a qualidade tem duas letras: VW…
Filho de antiquário, é ele próprio um coleccionador de diversificados interesses, como candeias antigas, azulejos e marcenaria. Com enorme respeito por tudo o que é antigo, de origem, e a favor da preservação do passado, não é assim de estranhar que esperasse encontrar o 1600TL em bom estado de conservação.

Excelente conversador, e uma simpatia de pessoa, desejoso de mostrar o apreço que tem pelo carro.

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No entanto, e apesar do bom estado geral, o carro tem evidentemente um razoável desgaste de uso associado.

Fui vê-lo num dia de tarde, com sol do Verão de São Martinho, junto ao mar, numa casa tão tradicional quanto o passado o consegue ser. Parei o meu “Expresso” à porta, o que valeu logo comentários simpáticos do Arq. Castro.

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Ainda tem três tampões que servem no meu, que de imediato se prontificou a oferecer-me. Tem uma memória prodigiosa, e factos dos anos 50 são para ele tão presentes quanto o tempo actual. O 25 de Abril de 1974 parece ainda hoje, e os assuntos flúem hoje como se em 1960 estivéssemos…

Posted: 14 Nov 2008 02:16
by Miguel Brito
Mas vamos lá ver o carro: apontou de imediato o único ponto de ferrugem e mau estado de chapa, o clássico ponto da base da cava da roda esquerda dianteira e base do pilar. Nada de inesperado, e não muito extenso.

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Os interiores da mala da frente apresentam tudo de origem, nada danificado, nem com ferrugem visível, e mais que isso, com todos os parafusos de fixação dos guarda-lamas originais.

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A chapa de construtor também está imaculada, bem como o autocolante junto à abertura. O interior não parece ter sido repintado.

“Os pneus são todos novos, até o sobresselente! Foi compra recente, os outros estavam imprestáveis. Custaram uma fortuna! Estão aqui 150 contos de pneus! Isto tem que ter pneus bons, o carro anda demais. O segredo é ter 17 libras à frente e 24 atrás!”

De facto, os pneus estão novos, o que já não se pode dizer do estado das jantes…. Mas é uma opção, a filosofia de manter tudo original, mesmo que signifique não renovar e nem sequer melhorar.

“E para além disso, ando aqui com uma pedra de soleira, pesada, na mala da frente. Era o mal dele, levanta a frente a alta velocidade, fica instável. Mas assim não. Dizem que podia mudar os amortecedores por outros especiais para o carro, mas eu não quero! Não mudo nada no carro que não seja dele. Por isso está neste estado: não altero nada, nem pinto nada! Os defeitos estão à vista, e é melhor assim. Não acredito em carro pintados para serem vendidos e depois ninguém sabe o estado em que está. Aqui, o que se vê é o que é! Isto é carro só para quem goste. Não é comum. Merecia alguém que tome bem conta dele quando eu já não puder. Hoje são coisas antigas, e agora até são raros. Na altura era apenas um bom carro, e continua a ser, mas hoje os hábitos e gostos são outros. É o progresso…”

Posted: 14 Nov 2008 02:19
by Miguel Brito
Na mala traseira, tudo se encontra conforme à origem, com a capa plástica protectora e seus ilhoses de origem a funcionar, cobrindo a abertura do alçapão de acesso ao motor.

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O motor está completamente de origem, não faltando nada, embora tudo com alguma ferrugem superficial, tubos ressequidos e gastos. Tudo está lá, mas gasto.

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Em termos de exterior, todas as folgas estão certas, os plásticos dos piscas completamente descoloridos pelo sol, as borrachas ressequidas embora não partidas, tudo precisa de renovação.

Do lado direito, tanto o painel da porta como o flanco estão ligeiramente metidos para dentro, resultados de uma batida lateral numa parede de garagem. Também isso não foi corrigido.

Uma batida no pára-choques traseiro deformou a forma e encostou à carroçaria. Para além disso necessita recromagem.

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Note-se que as chapas de matrícula são ainda as originais, e a chapa do vendedor é ainda a AMA – Auto Monumental do Areeiro.

O primeiro dono terá sido de Torres Vedras, e usou um porta-chaves de prata que ainda hoje é o que serve no carro, como amuleto de boa sorte.

Posted: 14 Nov 2008 02:21
by Miguel Brito
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No interior, o problema clássico do tablier partido e cortado pelo efeito do sol. Precisa substituído. Também os aros dos mostradores apresentam corrosão.

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“Mas pega à primeira! Quer ver?” E efectivamente assim foi, ficando de imediato a trabalhar bem, sem batidas nem defeitos. Notava-se o arranque a frio a funcionar e o progressivo acerto de ralenti à medida que aquecia. O motor está perfeitamente normal, e o carro tem 148 522 km percorridos.

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“Já fiz muitas viagens! Oh, se fiz. Um andamento excelente, faz estrada perfeitamente nos 120-130 km/h. Viajei muito nele. O único melhor foi um 1303S que tive, grande carro, um estradista. Andava mais que muitos, envergonhava muitos carros mais caros! Mas este, em determinada altura chegou a ser o meu único carro. Andei por todo o lado, Tinha obras em curso, e já se sabe, era sempre uma roda-viva de um lado para o outro. Naquela época, cheguei a gastar 90 contos de gasolina por mês. Uma fortuna, para a época. Nunca me deixou mal. E actualmente está inspeccionado, tem seguro, parte para onde for preciso. E não é preciso andar devagar! É um carro rápido, dá 130 durante horas, se for preciso.”

Os estofos, no interior, estão em bom estado. Os bancos absolutamente novos, bem como os dispositivos laterais e da base. Os painéis das portas são os dele, apenas alguns pontos rasgados no apoio dos braços. Tem apoios de cabeça, como extra.

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Posted: 14 Nov 2008 02:25
by Miguel Brito
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Tapetes e tudo no lugar, alguma “confusão” eléctrica, e o tecto do tejadilho com um rasgão apenas num ponto isolado.

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Por isso que dizer? Nem está bom, nem está mau. Está usado, como um bom e honesto vw consegue ser, capaz de muitos mais quilómetros, mas precisando também ele de algum carinho extra, alguma sensibilidade muito necessária para identificar o nível aceitável de restauro a empreender, sem destruir o que o carro é e nunca deixou de ser, mas conseguindo também manter uma parte da patine que conforma uma realidade de presença através dos anos muito particular.

Deverá e merece ser restaurado, mas não completamente desmontado. Não precisa ser “reconstruído”, precisa apenas de alguma atenção em vista em preservar o mais possível a originalidade sem exageros de “over shine”.

O carro está direito, sem batidas fortes, sem precisar de ser pintado por dentro. Mala dianteira, traseira e o interior, deverão manter a sua existência, conforme chegaram até hoje.
Merece e precisa de um tablier novo, melhorar os manómetros, forrar de novo o tecto, alguns detalhes nos apoios de portas, etc. Algumas borrachas precisam substituídas, outras massajadas para renovarem a elasticidade.
O motor precisa apenas de uma leve desmontagem parcial de elementos para renovação e remontagem, bem como troca de todos os tubos.

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“Parte para qualquer distância!”

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“Não é um carro, é um Volkswagen!...”

Posted: 14 Nov 2008 02:31
by Miguel Brito
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A sedução da diferença: o volkswagen "grande"

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Posted: 14 Nov 2008 02:34
by seventropical
mais uma grande reportagem do nosso amigo Miguel Brito.....obrigado.. :wink:

seventropical..... :wink:

vw

Posted: 14 Nov 2008 12:03
by pt2007
Que belo documentário, mais um... Muito bom bela história de cumplicidade entre o homem e a máquina, só mesmo possível com um vw.

Posted: 14 Nov 2008 12:31
by rmoreira
Sem dúvida uma história muito interessante, mesmo ao meu gosto e que li, do início ao fim, sem parar.
Miguel, se tiver mais histórias destas, venham elas!!!

Posted: 14 Nov 2008 14:05
by RENATO LIMA
Assim , isso é amor à primeira vista !

Posted: 14 Nov 2008 14:51
by Hugo
The GURU.....
:wink:

Posted: 14 Nov 2008 21:30
by nezz
Miguel, obrigado pela história de uma vida de companheirimo :wink:

espero que o Sr. Castro continue por muitos anos a conduzir o TL. quando o vender será, certamente, morrer um pouco

Posted: 14 Nov 2008 22:50
by dionisio alves
Só mesmo o nosso Miguel Brito para nos prender deliciosamente ás suas palavras. A reportagem está o máximo e a estória é de encantar. Belo carro!!! 8)

Posted: 14 Nov 2008 23:13
by Katapla
... é nestes momentos que nos abstraimos de tudo e de todos. ( a minha filhota a falar comigo e eu nem a ouvia...) :oops:
São belas estórias de carochas e afins.
Obrigado pela escrita "fácil" e cativante.
Continue por favor

Posted: 15 Nov 2008 00:16
by PHILCOX
Obrigado Miguel :wink: por mais essa bonita historia e tambem pela tua disponibilidade por teres ido ver o carro, conseguiste juntar o util ao agradavel.
Abraço :wink: