"De 1965 é que as jantes deveriam ser as de 5 furos... " (HugoBoss)
Pois deviam... Está claro que é a situação do costume: tudo kitado... De 1965 tem apenas o aspecto geral. A maior parte destas máquinas não são "carros antigos", são máquinas ce competição com aspecto e conceito clássico, cheias de peças performantes actuais, e capazes de andamento que nunca tiveram em 1965...
Isso é aliás um problema técnico e ético muito actual: até que ponto deveremos aceitar modificações e alterações? Há os puristas, há os "selvagens", há de tudo um pouco.
Talvez a virtude esteja no facto de cada qual poder interpretar a sua opção pessoal, apesar da existência de regulamentos, que são picuinhas numas coisas, mas muito ausentes e permissivos noutras. Somando a isso o facto dos fiscais pouco saberem de volkswagens, porque "não são como os outros carros a sério, jaguares, porsches, etc", então tudo pode acontecer.
No meu caso pessoal, a opção foi sempre pelo standard de fábrica, o que me deixou sempre com os míseros 34 cv presentes, mas o meu gozo pessoal era acabar prova com uns quantos "Kitados, potentes e bons" metidos bem abaixo de mim na tabela classificativa final. E quantos foram eles...
Mas não tenhamos dúvidas: para subir na tabela há que"meter dinheiro e potência" no carro, o mesmo que dizer, "alterar e kitar". Tanta sofisticação pode ser vista no carocha preto&branco Okrasa de Pedro Dinis, ou nos carochas com motor brasilia alterado de Giovanni Salvi, ou no oval com chassis 1500 do London-Lisbon de 2002. Enfim, os exemplos são inúmeros.
Mas não é só nos volkswagens que tal fenómeno se verifica. O "BMW Queiroz" é uma amálgama de soluções para a máxima performance. O “Volvo marreco” deste ano, de Vasco Pinto Basto, tem lá dentro vitaminas delirantes, e tem um comportamento e arranque impossível de ser lógico num “carro antigo” daqueles.
A este nível de luta pela competição já não estamos a falar de carros antigos, mas de máquinas destinadas a competição pura e dura.
Mas é esta apetência pela excelência competitiva que mantém as oficinas especializadas a trabalhar, que faz florescer o negócio dos acessórios, como a Moss, e que permite, por arrasto, que ainda existam oficinas para ajudar a manter os verdadeiros clássicos e antigos operacionais na estrada.
Por isso, não me espanta que o Notchback 1500S “de 1965” seja também um exemplo de alterações pouco visíveis mas presentes para aumentar a fiabilidade e alguma maior capacidade competitiva com outras máquinas, elas também adicionadas de complementos modernos.
O mais interessante, numa competição como esta, que mescla dificuldade várias, com tempos curtos de ligações, estradas propositadamente difíceis e más, extensos km’s, dificuldades logísticas, é de exigir simultaneamente fiabilidade, persistência, consistência, atenção, numa actividade multisensorial de síntese entre contas, matemática, previsão logística, preparação prévia de carro, mente e atitude, que leva máquinas e pilotos ao limite.
Por isso se torna tão interessante ir observar o rallye ao seu grande final, na Noite de Sintra, na sexta-feira: aí poderemos descobrir as consequências e sucesso ou não de toda a acção de competição. O estado dos carros, dos motores, dos nervos e cansaço dos concorrentes, do estado real a que centenas de km’s acelerativos provocaram de desgaste em pessoas e máquinas.
Dos erros dos outros e do seu sucesso, aprendemos a lição para nossa aplicação.
Aprendo sempre algo com a competição dos outros, que depois posso aplicar nas minhas opções para optimizar o uso dos meus clássicos no quotidiano. Pequenas soluções de arrumação, de entender o material prioritário ou não, de perceber como organizar tudo, entender as questões fundamentais ou acessórias, saber priorizar, em suma, aprender a ser melhor condutor.
Nem sempre, ou melhor, quase nunca, o carro mais potente é vencedor. Picos de potência não são úteis para longo curso, e cedo queima algo, ou danifica-se irremediavelmente. O segredo é fiabilidade, base motor próximo do standard, mas upgrade de complementos periféricos. Mas sem complicar! KISS = keep it simple, stupid!
Peso é inimigo da velocidade, a caixa dever ser curta em três relações e longa em quarta, priviligear potência em baixas, para arranques e retomas, e não alta velocidade apenas para ligações extensas em auto-estrada.
É um mundo infinito de permanente estudo, em busca do carro utópico e perfeito, que nunca existe. O carro que “faz tudo” não existe. Mas existem alguns próximos. Normalmente, a escolha ideal é partir de um carro que já vem suficientemente eficaz e resistente de fábrica, o que garante numa primeira escolha a natural opção porsche (tal como referia o piloto português António Morais), mas um volkswagen é de facto uma mais modesta escolha, substancialmente mais económico, e capaz de um retorno de alegria e eficácia apreciável.
Por isso me pareceu muito adequada esta presença feminina em 1500S, sabendo que assim não precisarão de passar o tempo a abrir o capot como nos escorts ou alfas. Afinações que se mantém constantes, resistência de componentes, com suspnesão dianteira mais reforçada que num carocha, garantem que não se soltem ou partem “coisas”. O interior, mais espaçoso que um carocha permite mais conforto numa prova desta duração, e assim podemos acreditar num possível bom resultado desta dupla norueguesa. Agora, pela minha parte, só reencontro a prova na Noite de Sintra.
Até lá, procurem vocês apoiar as condutoras do VW 1500S ao longo do país: levar água fresca e bolinhos regionais para as concorrentes, e se for numa paragem mais longa, meio litro de óleo 15W40 caso seja necessário, lanterna, papel de cozinha e ajax para limpar o vidros dianteiros e faróis, canivete multi-usos, e digam que são do GaragemVW, amigos VW sempre perto de si!
