O assunto foi muito trágico, e de muita desorganização no local, com o desfecho trágico das mortes acontecidas.

Aqui podemos ver como o fogo aumentava de intensidade, perfeitamente fora de controle e propagando-se através da fachada ao andar superior.

Os bombeiros continuavam sem aparecer deste lado do edificio...
Como era possível duas pessoas lá dentro sobreviverem a este Inferno?
Vejamos como me deparei com esta terrível situação:
Depois do almoço, eu tinha ido dar uma volta com a Xana e os miúdos dentro do carro, em que aproveitamos para ir ao Lidl de S Domingos de Rana. Quando regressávamos a casa, atalhando pelo bairro de Matos Cheirinhos, pelas 16.00H, apercebi-me de uma grossa coluna de fumo vinda do interior do bairro. Ficava praticamente em caminho, e resolvi desviar para ver do que se tratava.
De imediato vi inúmeros populares em fuga, a correrem desordenados para o local. Assim que vi fumo a sair de duas janelas de um rés-do-chão resolvi estacionar, um pouco de parte, para evitar a confusão excessiva, e sai do carro. Disse para a Xana trancar as portas e esperar, que eu já voltaria. Dirigi-me para as duas janelas que deitavam fumo espesso, e descobri que eram as traseiras do prédio, e ninguém se encontrava por perto. Disparei as primeiras fotografias as 16.20H, olhando á volta espantado por não ver ninguém. Nem populares, nem polícia, nem sequer bombeiros.

Resolvi dar a volta ao edifício, e aí então encontrei uma enorme confusão. Bombeiros, alguns polícias e uma multidão, todos aos gritos, a empurrarem-se e a andarem de um lado para o outro. Desesperados, diziam que havia duas pessoas lá dentro, que gritavam e que iam morrer queimadas.

Note-se as mangueiras estendidas, sem água...
Voltei para as traseiras do edifício, e tudo continuava abandonado. O fogo estava descontrolado, aumentava de volume, o fumo deu lugar a chamas, vermelhas e longas, que babavam a parede do prédio, ameaçando propagar-se aos andares superiores. Continuei sozinho, sem bombeiro algum, apenas apareceu um senhor que entrou para um carro que ali estava estacionado e o retirou assustado com as proporções que aquilo estava a tomar. O fogo aumentava cada vez mais de intensidade, e agora eram os estores de plástico dos andares superiores que começavam a soltar-se e a cair aos pedaços cá em baixo. As janelas do piso imediatamente acima partiram-se e o fogo não dava sinais de diminuir. Estranhei continuar a não haver bombeiros daquele lado, e tudo ardia descontroladamente.
Achei que era melhor ver o que se passava do lado da frente, pois ao menos ai estava um carro de bombeiros. Neste momento havia também lá um jipe dos bombeiros que dizia Comando, com um individuo lá dentro e uma ambulância. De lado, uma boca-de-incêndio estava obstruída por uma mota, que os bombeiros não conseguiam retirar do local.

Foram depois os populares que a conseguiram desviar, tal como se verifica nas fotografias.

As bocas-de-incêndio estava inoperacionais, pois as mangueiras não tinham bocais compatíveis, e os bombeiros tinham já várias espalhadas pelo chão, mas nenhuma parecia servir nos bocais.
Uma confusão tremenda, a situação completamente fora de controlo, com os populares virados contra a pouca policia e contra a ineficácia dos bombeiros. “Vêem apagar um fogo e não trazem água!? Onde é que já se viu isto?”
O carro dos bombeiros não tinha água, as bocas-de-incêndio não funcionavam, e ficaram ali todos ás voltas, sem sentido algum, aos gritos, a implicarem uns com os outros, a discutirem, e sem conseguirem fazer o que quer que fosse.

Finalmente, as 16.40H chega um carro de bombeiros não da Parede, mas sim de Carcavelos, que de imediato estaciona nas traseiras, onde ninguém estava, saem os bombeiros, esticam as sua mangueiras e atacam imediatamente o fogo através das duas janelas.

Em segundos,puxam as suas mangueiras, e começm a atacar o incêndio, pela parte posterior.
Nessa altura já o piso de cima estava com a fachada destruída.
O comandante dos bombeiros da Parede continuava dentro do jipe de comando, e enquanto os bombeiros de Carcavelos apagavam o fogo chega finalmente uma camioneta calhambeque Mercedes antiga, da Parede, para reforço, as 16.42H, mas ai já tudo não só estava completamente ardido, mas começavam os bombeiros de Carcavelos a conseguir diminuir a forca das chamas.

Com grande aparato de luzes e sirenes chegam as 16.44h um carro e um jipe da GNR cheios de polícias, mas nessa altura já desnecessários, pois nada havia a fazer.

O perímetro de segurança nunca foi delimitado, a população corria por todo o lado desesperada, e foram os populares que desviaram a mota de acesso a uma das bocas-de-incêndio, e foram eles que ajudaram a chamar mais bombeiros, e inclusive a SIC.
Pouco depois os repórteres da SIC recolheram imagens e depoimentos (incluindo o meu) e aceitaram as fotografias que eu era o único que tinha tirado, à excepção de algumas outras pessoas que usaram o telemóvel, e de um senhor que filmou parte do ocorrido em camera de vídeo.
Foram essas imagens de vídeo e as minhas fotografias que foram apresentadas no noticiário da SIC, as 20.00H de domingo.

Quando estavam já a decorrer as acções de desenfumagem do local, caiu repentinamente junto aos bombeiros uma janela atirada do último andar do prédio contíguo.

Olhamos todos para cima surpresos, e vimos ainda um indivíduo alterado que atirou a outra metade, desfazendo-se as duas partes no solo, a escassos metros dos bombeiros.
Incomodados com o facto, os bombeiros de Carcavelos, que procediam As acções, assinalaram o facto à GNR que então decidiram subir ao prédio, aparecendo pouco depois um agente acenando a dita janela, já sem vidros. Pelos vistos havia gente dentro dos prédios contíguos ao incêndio, prova de que não parecia haver controle algum sobre a situação.
Foi apenas por um acaso que não foram atingidos os bombeiros pelas duas janelas arremessadas do ultimo piso… e prova de como todos estavam revoltados pela ineficácia dos bombeiros que queriam apagar fogos sem agua, e que enquanto todos andavam as voltas sem acção definida, duas pessoas faleciam ali perante todos, num fogo urbano completamente descontrolado, frente aos bombeiros que nada conseguiam fazer, até a chegada dos outros, vindos de Carcavelos.
Durante cerca de meia hora, as traseiras do edifício estiveram entregues a si mesmas, sem ninguém que fizesse o que quer que fosse. As fotografias ai estão, veja quem quiser ver, mas o desfecho foi trágico, e pelos vistos tudo pode acontecer, ate morrerem duas pessoas queimadas, sem que haja solução possível. Mangueiras inúteis, uma evidente falta de água, polícia tardia, no fim e não no princípio, desarticulação de tudo e de todos, e como resultado desta grande confusão, duas mortes a lamentar.
Nem sei o que diga...
Um fogo a arder sózinho, e os bombeiros presentes...
